Regurgitação tricúspide em pets como identificar sinais essenciais no cardiologista veterinário
A regurgitação tricúspide é uma condição cardíaca caracterizada pelo refluxo anormal de sangue através da válvula tricúspide durante a fase de contração do coração, ou sístole. Essa alteração hemodinâmica pode ser detectada com precisão por meio de ferramentas como o ecocardiograma, exame fundamental para avaliar a gravidade do comprometimento valvar, a função ventricular direita e as consequências em órgãos periféricos. A importância dessa abordagem diagnóstica está diretamente ligada à possibilidade de intervenção precoce que previne a progressão para insuficiência cardíaca congestiva, com seus sintomas incapacitantes, como ascite e edema pulmonar.
Para médicos veterinários e proprietários de pets cardiopatas, compreender os mecanismos, causas e custos clínicos da regurgitação tricúspide torna-se crucial para um manejo otimizado. A parceria entre clínicos e especialistas em cardiologia veterinária , além do uso criterioso de exames complementares como o eletrocardiograma, monitorização Holter e dosagem de biomarcadores como o NT-proBNP, amplia a precisão diagnóstica, orienta a terapêutica e melhora significativamente o prognóstico dos pacientes.
Antes de entrarmos nos detalhes específicos da regurgitação tricúspide, é fundamental entender como sua presença se manifesta e qual o impacto real para cães e gatos, especialmente aqueles já afetados por doenças como a doença valvar mitral ou a cardiomiopatia hipertrófica felina. A seguir, destrincharemos os aspectos fisiopatológicos, etiológicos, diagnósticos e terapêuticos relativos a essa condição complexa e desafiadora.
Fisiopatologia da Regurgitação Tricúspide
Entender a regurgitação tricúspide exige uma análise detalhada da anatomia e função do coração direito, em especial da válvula tricúspide, localizada entre o átrio direito e o ventrículo direito. Esta válvula tem a função de impedir o refluxo sanguíneo para o átrio direito durante a sístole ventricular. Quando apresenta insuficiência, o sangue retorna para o átrio, elevando a pressão atrial e provocando efeitos em cascata nos vasos sistêmicos.
Anatomia e Função Normal da Válvula Tricúspide
A válvula tricúspide normal é composta por três cúspides (folhetos), suportados por cordas tendíneas que se conectam a músculos papilares no ventrículo direito. Essa estrutura permite o fechamento hermético durante a contração ventricular, garantindo que o sangue seja direcionado à artéria pulmonar.
Quando há alteração nessa arquitetura, seja por degeneração, inflamação ou pressão excessiva no ventrículo direito, a válvula torna-se incompetente, desempenhando papel central na gênese da regurgitação tricúspide.
Consequências Hemodinâmicas da Regurgitação
O refluxo sanguíneo gera aumento da pressão no átrio direito, que se traduz em distensão das veias cavas e congestão venosa sistêmica. Essa congestão pode se manifestar clinicamente como edemas localizados, ascite (acúmulo de líquido abdominal) e hepatomegalia (fígado aumentado), sintomas que impactam diretamente na qualidade de vida do paciente.
Além disso, o trabalho adicional imposto ao ventrículo direito para compensar essa regurgitação pode resultar em dilatação e disfunção ventricular, aumentando o risco de arritmias e insuficiência cardíaca direita. O relacionamento desses fenômenos com patologias concomitantes, como a doença cardíaca valvar degenerativa e cardiomiopatia hipertrófica, potencia a gravidade clínica.
Diferenciação entre Regurgitação Primária e Secundária
A regurgitação tricúspide pode ter origem primária, quando há lesão direta à válvula (ex: endocardite infecciosa ou degeneração mixomatosa), ou secundária, ocasionada por alterações estruturais no ventrículo direito, como dilatação ou hipertensão pulmonar, que distorcem a geometria valvar.
Essa distinção é relevante para o veterinário, pois o tratamento clínico varia conforme a causa, influenciando desde a escolha de medicamentos até a necessidade de encaminhamento para procedimentos especializados.
Causas e Doenças Associadas à Regurgitação Tricúspide em Cães e Gatos
Antes de avaliar o diagnóstico, compreender os fatores que levam à regurgitação tricúspide ajuda a direcionar a condução do caso e a realização de exames complementares.
Doença Cardiovascular Degenerativa
Nos cães, predominam as causas degenerativas valvares, frequentemente associadas à doença da válvula mitral. A dilatação do átrio direito e ventrículo direito decorrente da sobrecarga de volume também pode afetar a válvula tricúspide, criando regurgitação funcional secundária.
Hipertensão Pulmonar
A elevação da pressão na circulação pulmonar aumenta a pós-carga do ventrículo direito, provocando hipertrofia, dilatação e, consequentemente, insuficiência da válvula tricúspide. Etiologias comuns incluem a doença do verme do coração (dirofilariose), embolia pulmonar e patologias pulmonares crônicas.
Cardiomiopatias Felinas
Na medicina felina, a regurgitação geralmente ocorre como consequência de doenças primárias do ventrículo direito, especialmente na cardiomiopatia hipertrófica e cardiomiopatia dilatada, em que a disfunção valvar é secundária à remodelação cardíaca.
Endocardite e Doenças Infecciosas
A endocardite bacteriana, embora mais rara, representa uma causa grave de regurgitação tricúspide primária, exigindo diagnóstico e tratamento precoces. Além disso, infecções como a dirofilariose podem desencadear inflamação e disfunção valvar.
Traumatismos e Anomalias Congênitas
Lesões traumáticas, como contusões torácicas, ou anomalias congênitas na formação da válvula tricúspide também podem causar regurgitação, ainda que essas sejam menos comuns na prática clínica.
Diagnóstico Clínico e Exames Complementares
Identificar regurgitação tricúspide em estágios iniciais é essencial para prevenir complicações. Observações clínicas correlacionadas com exames modernos garantem essa precisão.
Sinais Clínicos e Ausculta
O exame clínico pode revelar sopros cardíacos audíveis no foco tricúspide, usualmente um sopro holossistólico no lado direito do tórax. Sintomas evidentes incluem intolerância ao exercício, edema de membros posteriores, ascite e sinais de insuficiência cardíaca direita.

Ecocardiograma Doppler Colorido
O ecocardiograma é o padrão-ouro para diagnóstico, permitindo visualizar o refluxo sanguíneo na válvula tricúspide, medir gradientes de pressão, avaliar função ventricular e detectar causas secundárias, como hipertrofia ou dilatação do átrio direito.
Além disso, o ecocardiograma orienta o prognóstico e a necessidade de monitoramento ou terapia específica, mostrando desde alterações subclínicas até lesões severas.

Eletrocardiograma e Monitorização Holter
O eletrocardiograma auxilia na detecção de arritmias, comuns em pacientes com regurgitação tricúspide avançada. A monitorização Holter permite avaliação dinâmica, identificando eventos transitórios que podem impactar a terapia e o prognóstico.
Radiografia Torácica
As radiografias complementam o diagnóstico mostrando alterações no tamanho cardíaco, congestão pulmonar e possíveis sinais de edema pulmonar, importantes para avaliação do estágio da doença.
Biomarcadores Cardíacos
A dosagem do NT-proBNP fornece informações valiosas sobre a sobrecarga cardíaca e risco de insuficiência, sendo útil para monitoramento ao longo do tempo e ajuste terapêutico.
Abordagem Terapêutica e Manejo Clínico
Tratar regurgitação tricúspide exige planejamento individualizado para cada paciente, balanceando a gravidade clínica, causas subjacentes e comorbidades, visando melhorar qualidade e expectativa de vida.
Medicamentos e Controle da Insuficiência Cardíaca
Aos sinais de insuficiência congestiva, o uso de diuréticos como furosemida alivia sintomas de congestão e ascite. O pimobendan, um inodilatador positivo, pode ser indicado para melhorar a contractilidade e reduzir a pós-carga, especialmente em casos com disfunção ventricular direita.
Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) auxiliam no controle neuro-hormonal, reduzindo a remodelação cardíaca e pressão sobre a válvula defeituosa.
Importância do Controle da Hipertensão Pulmonar
Tratamentos específicos, como o uso de vasodilatadores pulmonares (ex: sildenafil), são essenciais nos casos onde a hipertensão pulmonar é a principal causa da regurgitação, reduzindo a sobrecarga do ventrículo direito e melhorando performance cardiovascular.
Intervenções Cirúrgicas e Avaliação Referencial
Em irregularidades valvares graves e refratárias ao tratamento clínico, a intervenção cirúrgica valvar pode ser considerada, embora ainda restrita a centros de referência. Por isso, o encaminhamento para cardiologistas especializados e centros de cardiologia veterinária é vital para discussão multidisciplinar e planejamento adequado.
Monitoramento Contínuo e Reavaliação
A reavaliação periódica com ecocardiografia e biomarcadores permite ajuste terapêutico dinâmico e antecipação de complicações, prevenindo a evolução para falência cardíaca irreversível.
Impacto Emocional e Comunicação com o Proprietário
O diagnóstico de regurgitação tricúspide causa evidente preocupação em donos de pets. É imprescindível uma comunicação clara, explicando a doença em termos acessíveis e os benefícios do controle rigoroso, para garantir adesão ao plano terapêutico e reduzir ansiedade.
O veterinário deve enfatizar que, embora seja uma condição crônica, o manejo adequado pode proporcionar anos de boa qualidade de vida, com acesso a consultas regulares e suporte contínuo.
Resumo e Passos Práticos para Avaliação e Encaminhamento
Regurgitação tricúspide é uma patologia significativa que requer diagnóstico preciso, manejo clínico cuidadoso e, algumas vezes, encaminhamento para especialistas. Ao identificar sinais clínicos como sopro cardíaco, ascite ou edema, solicite ecocardiograma Doppler colorido para confirmar o diagnóstico e definir o grau de comprometimento.
O uso combinado de eletrocardiograma, monitorização Holter e dosagem do NT-proBNP oferece uma visão ampla da gravidade funcional e do risco epidemiológico para o animal. Pacientes com insuficiência cardíaca congestiva avançada ou arritmias complexas devem ser encaminhados para avaliação cardiológica especializada.
Não deixe de considerar causas secundárias, como hipertensão pulmonar e doença do verme do coração, para definição do melhor protocolo terapêutico. O manejo adequado envolve pimobendan, furosemida e controle da pressão pulmonar, aliados a monitorização contínua e comunicação efetiva com o tutor.
Agende uma avaliação cardiológica detalhada para seu paciente se houver suspeita ou confirmação de regurgitação tricúspide, assim garantindo uma abordagem precoce, eficaz e alinhada com os protocolos recomendados pelo CFMV e ACVIM, otimizando a qualidade e longevidade de vida do seu pet.